Na parte traseira do microônibus com vários lugares vazios, sentei na cadeira do meio, ao lado de uma bandeja de 30 ovos.

Um homem, sentado na janela, preocupado, pegou a bandeja.

Tranquilizei-o com um legal. A bandeja podia continuar no mesmo lugar, não tinha problema.

Ele colocou a bandeja de volta ao assento, em meio a várias divagações sobre uso dos lugares do ônibus.

Fardado com a roupa da empresa Magnólia, o tema da bandeja de ovos foi a oportunidade que precisava para entrar no primeiro tema: o direito de todos de usarem o ônibus, pois o respeito; não, quer dizer, o direito dele acabava quando começava o meu… Ou o meu respeito ou direito, quando o dele começava… Algo assim (tentou me explicar).

Observou também sobre a constante valorização do ovo na nossa cultura, da alta procura, apesar da pandemia, do preço da carne…

– A bandeja de ovo tá mais cara que o bife, mas ninguém deixa de procurar. Eu trabalho com ovo, enjoo. Mas, às vezes, prefiro comer ovo do que o bife. Né, não?

Concordei com um sorriso. Eu como ovo em duas refeições, diariamente.

O homem estava com os olhos bastante vermelhos. Falava, ora com um sorriso ora com os olhos arregalados, e se movimentava com certa lentidão nos movimentos que fazia, mas o raciocínio estava bastante aguçado. Só parava para olhar para a rua, enquanto vinha o próximo raciocínio, questionamento ou conclusão a respeito da sociedade em que vivia.

Já no final de seu trajeto, criticou as fogueiras de São João e os fogos de artifício.

“A cachaça faz mal só pra mim. A fogueira, pra quem tem asma… Os fogos assustam as crianças. Não é, não, senhora?” Questionou pra uma mulher que estava ao meu lado, oposto ao dele, na outra janela.

A gente sorria, diante do discurso que não parecia ter fim, quando o homem, já perto de descer, soltou:

“As pessoas me acham chato. Mas eu só digo o que acho.”, justificou, depois de ter apresentado todas as argumentações sociais que o inquietava. Quando fez a última conclusão:

“Pessoas pra entender, é pra poucos. Pra julgar, pra muitos.”

E nunca alguém tinha feito ser entendido de uma forma tão rápida e simples, assim, numa frase, enquanto se preparava para descer do ônibus, e reclamava da lentidão do motorista.
Antes de descer, se despediu:

“Fique com Deus. Amém?”

Agradeci, mas não respondi da forma que ele esperava. Porém, diante da insistência, respondi “amém” de má vontade.

Então, ele olhou para mim, bastante sério, e fez a última pergunta:
“Você sabe o que significa “amém”?

Sei, respondi, “assim seja”.

Então, ele mudou a expressão para surpreso. Parece que ele não esperava que eu soubesse de algo tão específico.

“Éeee. A senhora é entendida. A primeira pessoa que sabe.”

E desceu na parada, talvez se questionando como alguém, fora ele, poderia saber o significado da palavra “amém”. E logo uma mulher.

Amém.

Back To Top
Skip to content