22 de julho de 2022

Justamente na quarta-feira, quando eu tive de criar um plano de aula (para um processo seletivo em Buíque, Pernambuco) sobre direitos humanos na literatura/arte, a minha proposta foi: o protagonismo negro e LGBTQIA+ no slam de poesia*.

Eu deveria citar nomes conhecidos da literatura brasileira contemporânea, além de, ao menos, dois autores como referencial teórico.

Na hora, me deu um branco. “Meu deus, eu não sei de nada do que ensinam na Academia, nas escolas, do que noticiam… Eu não conheço nenhum autor… Nada…”

Após esse lapso de autocobrança e falta de autorreconhecimento, associado a um certo problema de retenção de dados na memória, consegui retomar a mim mesma. Foi quando dei espaço para me recordar de quem sou, do que acredito, da minha vivência e da minha história como professora.

Lembrei também da edição da Revista Continente sobre o movimento de slam de poesia das mulheres [1]. Da participação de Bione nos Outros Críticos. Do impacto de ver Luna Vitrolira no espectáculo A Dita Curva [2] e ter me sentido em diálogo com ela sobre o bullying em relação ao cabelo. E, mais recentemente, do Slam das Minas PE [3], onde vi o protagonismo feminino e de periferia ocupar a Rua da Aurora, me afetando em cada performance de Jéssica Preta, Carol Braga, Cris Andrade, Mun Há e outros nomes que não me recordo agora.

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No último ano em que lecionei no ensino regular do governo do estado de Pernambuco, passei a utilizar os gêneros e tipos textuais nas aulas de português como instrumento político e de luta social.

Eu sempre ouvia muita reclamação dos alunos, dos professores, de responsáveis, sobre a insalubridade física e psicológica da escola. Mas, especialmente os alunos se sentiam abandonados e injustiçados, o que era perceptível.

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Em qualquer lugar que eu esteja, o excesso de reclamação vai fazer com que ou me instigue (e logo faço o mesmo com quem está ao meu redor) para uma solução ou, simplesmente, me afaste.

Talvez por algum resquício claustrofóbico, preciso sentir a presença de alguma saída de ar ou  ver alguma luz no fim do túnel.

Eu tenho uma inquietude interna que não me permite contemplar a violência ou a passividade.

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Avaliei o meu papel de professora para com aqueles alunos; o meu papel de educadora do espaço escolar; o meu papel de cidadã da periferia; o meu papel no ensino de português nas escolas.

Não era o meu melhor momento pessoal nem financeiro para provocar a estrutura de abuso da instituição escolar a qual eu estava presa (além da própria familiar, também), desenhada, intencionalmente, para a eliminação de todos aqueles corpos. Mas eu já tinha chegado ao meu limite, após anos vendo o mesmo padrão de abandono e violência se repetir de escola em escola, de bairro em bairro. Sempre incomodada com o cenário de destruição e me cobrando sobre a minha verdadeira contribuição no lugar de uma profissional das Letras, embora recebesse metade do salário de um colega efetivo e quase nenhum direito ou benefício trabalhista.

Batwa Pygmies people, African tribe, Mgahinga Gorilla National Park, Uganda, September 2017.

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Propus uma conversa com os alunos para que eles se percebessem e notassem como estava o espaço ao redor deles (etapa de conscientização e reconhecimento que costumo fazer via diálogo). Vez ou outra eu fazia o mesmo com os colegas*, mas me concentrei em educar os discentes.

Pontuei os perigos que todos corriam em decorrência do projeto de abandono pela falta de manutenção e restauro (fio com corrente elétrica junto com infiltração na parede; ventiladores quebrados; salas quentes etc.) do governo em relação à educação da classe popular.

“Vocês concordam com isso? O que vocês querem mudar? O que podemos fazer?”

Estimulei um exercício recíproco de reconhecimento e busca pelo protagonismo.

Para isso, precisariam de uma base de apoio, para conquistarem a autoconfiança e segurança necessárias e, desse modo, se fortalecerem coletivamente. 

Embora o fato de o meu papel de mediadora possa ser interpretado como livre de tais necessidades e apoio, as demandas eram simbióticas e coletivas. Eu necessitava, tanto quanto eles, de uma base para exercer meu protagonismo.

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Depois de algumas conversas, preparei aulas sobre os gêneros discursivos mais comuns nas práticas cotidianas de oficialização de pedidos, comunicações, solicitações e reclamações que identificamos durante os diálogos. Passei atividades básicas para treinarem a exposição e argumentação tanto na fala como na escrita. Por fim, os acompanhei, indiretamente, nas etapas de acordo com a direção.

Assim, o conteúdo programático foi uma das bases que utilizei, além das mediações, orientações e conversas como estímulos para abrir caminhos que possibilitassem aquelas crianças e adolescentes acreditarem no próprio protagonismo e, com isso, transformarem o ambiente em que viviam para melhor.

Mas, diante das estratégias de silenciamento por parte de quem coordenava a escola (incluindo a gerência regional), inseri a proposta de um projeto de português para simular a organização e eleição de um grêmio estudantil* (pois, até então, a escola não tinha um grêmio e, vez ou outra, tanto estudantes como professores observavam isso, passivamente).

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No dia da eleição do grêmio, o sangue passou a correr pelas veias da escola: via-se o brilho nos olhos dos alunos, a alegria, a empolgação de serem protagonistas e, assim, poderem (isso mesmo, poderem) decidir a própria história. Eles podem.

E também foi um caos, como geralmente é, quando se costuma sair (e eu costumo me desvirtuar de qualquer estrutura rígida) da ergonomia e arquitetura behavioristas do ambiente escolar.

African man blowing on fire, Buhoma, Uganda, September 2017.

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Tentei fazer uma dinâmica de votação, já no final do turno, em uma das salas em que dava aula, para que cada turma do horário da manhã pudesse adentrar e votar.

Tanta movimentação sempre causa muito incômodo nesses tipos de instituições condicionantes, ao passo que é um lugar projetado para inibir corpos (e, logo, mentes).

Mas não qualquer corpo.

Na periferia, o corpo negro (ou miscigenado) é o interesse principal (lembrando que sou uma mulher cis branca mestiça).

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A votação ocorreu apenas no período da manhã e com as turmas da manhã, embora tenha tomado a proporção de eleição real, já que a ideia inicial era educar os alunos a aplicarem, isto é, usarem na prática, os textos como vetores de protagonismo e transformação do espaço escolar, em favor da própria autonomia.

A atividade acabou se transformando numa eleição efetiva e, finalmente, a escola ganhou um grêmio.

Ao menos, inicialmente*.

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– Maia, é verdade que te tiraram da escola?

Vez ou outra me fazem essa pergunta.

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O objetivo geral do plano de aula do processo seletivo consistiu em estimular o pensamento crítico (Bloom) e a autonomia (Paulo Freire) – através da abordagem triangular (Ana Mae Barbosa), com o intuito de incentivar o protagonismo negro e LGBTQIA+ nas zonas periféricas, por meio das autoras Luna Vitrolira, Bell Puã, Bione e Cris Andrade. Utilizando duas metodologias ativas de aprendizagem: situação-problema e aula invertida. Na qual a conclusão da atividade consistiria na produção de uma performance poética, ou melhor, um slam de poesia no espaço escolar.

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Abaixo do título do plano de aula, escrevi: “Sugestão de carga horária: 16 h/a.”. Passei a limpo o rascunho de todo o plano de aula..

Revisei tudo. Faltavam poucos minutos.

“Merda, pediram um plano de aula, acabei fazendo um plano de curso. Será que vou ser eliminada* por isso?”.

Risquei a sugestão de carga horária de uma forma que não desse pra ler.

“Merda, rasurei. Risquei demais. Será que vou ser eliminada por isso?”

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Aproximadamente, uma hora depois de escrevê-lo, finalizei a defesa do plano de aula com a banca avaliadora, que pareceu demonstrar surpresa e satisfação com a apresentação. Vi um gesto silencioso de aplausos, o qual devolvi com um sorriso tímido de surpresa e contentamento com o reconhecimento. Me levantei para me despedir.

– Você moraria em Buíque?

“Sim. Estou viajeira”, falei com um sorriso de libertação, enquanto me retirava da sala de aula.

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*É possível aprofundar mais sobre isso.

Ref.:

[1] Reportagem “A poesia do corpo”, texto de Erika Muniz e Lenne Ferreira; fotos de Tiago Henrique e vídeos de Eric Gomes, na Revista Continente, publicada em 02 de maio de 2018.

https://revistacontinente.com.br/edicoes/209/a-poesia-do-corpo

[2] Página do espetáculo “A dita curva”: http://ditacurva.art.br/

[3] Instagram do Slam das Minas PE. https://www.instagram.com/slamdasminaspe/

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