Quando eu estagiei na Escola Barbosa Lima, no Derby (Recife/PE), tinha um professor que era sempre referenciado, por estudantes e colegas, como o que sabia colocar ordem na sala de aula.

Eu, mulher, no início dos meus 20 anos de idade (com cara de 16 anos, lecionando para adolescentes) – recebendo uma bolsa de, aproximadamente R$ 240,00 (sem benefícios), responsável por quatro turmas de 45-50 alunos, cada, em salas com proposta inclusiva nas quais, nem sempre, tinham intérpretes de Libras, muito menos material multimídia – tentava por ordem na sala de aula por, pelo menos, 15 minutos de tranquilidade, sem muito sucesso.

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Vez ou outra, quando eu passava pelo corredor e na frente da porta de uma das salas em que esse professor dava aula – uma das turmas barulhentas que eu também lecionava – estava em completo silêncio. Quase nada parecia se mover, além do ventilador, dentro daquele ambiente completamente controlado pelo docente.

Logo, me questionava: o que ele faz para conseguir isso? Por que ele consegue e eu não consigo? Onde estou errando?

Então, numa das vezes que passei novamente e a porta estava aberta, vi ele manusear algo como um barrote que estava em cima de seu birô, enquanto olhava firme, parecia ameaçador, para frente, onde estava a turma.

Institivamente, ele começou a bater o barrote sobre o birô com diversos golpes intensos, em sequência. Percebo, hoje, no ato desse macho, uma performance de frustração e ódio que estavam sendo traduzidos em um som estridente o suficiente não apenas para cortar qualquer possibilidade de os alunos conversarem entre si, mas, especialmente, qualquer abertura de diálogo entre ele e a turma (isso para não dizer que a imagem, agora, me remete aos 80 tiros disparados pelo Exército contra o carro de uma família, no Rio de Janeiro[1]).

O barulho era insuportável (agora me lembrei de um possível experimento que vi, no Instagram, com uma criança que muda de comportamento – inibe-se de voltar a brincar – quando uma mulher adulta grita, próximo a ela, com outra pessoa que está no mesmo local. Isto é, nasce-se um trauma, uma repressão, uma inibição, naquela criança, durante um experimento).

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O professor tinha gerado uma espécie de código Morse do terror no qual os adolescentes demonstraram um bom desempenho no aprendizado daquela linguagem inventada por ele – tendo como base, obviamente, a estrutura abusiva e terrorista da nossa sociedade contra a classe popular – e, rapidamente, os discentes captaram a mensagem daquela figura masculina e autoritária no ambiente escolar, como costuma acontecer.

Uniram-se, ali, naquela rápida cena que presenciei enquanto passava de uma sala de aula para outra, os ingredientes que faziam a turma se calar e prestar atenção ao professor.

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– Professora, por que a senhora é tão calma? Por que a senhora não grita com os alunos? Fale mais alto, professora!

Foi o questionamento, com inconformidade ao meu estilo de comunicação (observação recorrente em qualquer lugar onde eu esteja), que ouvi de uma aluna, anos depois à cena do Barbosa Lima, dessa vez na Escola Ana Malta da Costa Azevedo (na Bomba do Hemetério), última escola na qual trabalhei durante quatro anos, aproximadamente, como professora “temporária”*.

“Porque eu tenho o meu limite de voz. Eu posso tentar falar mais alto. Mas eu não tenho condições de competir com a acústica horrível da sala de aula, com ventilador, nem com vocês. Eu não tenho microfone. Vejam quantas pessoas têm aqui. Eu sou só uma. Se estou falando, vocês deveriam me respeitar e parar para me ouvir. Da mesma forma que eu paro para ouvir vocês.”

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A violência, a dor, o sofrimento, a tortura estão tão entranhados em nossa estrutura social, que qualquer pessoa que chegue, nessas instituições, no início, com o equilíbrio ao invés do exagero; com a calmaria ao invés do furacão; com o silêncio ao invés do estardalhaço; com o amor ao invés do ódio; passa a ser questionada, ridicularizada, vista como estranha, incompetente ou com desconfiança.

Ou seja, qualquer pessoa que provoque algum desvio de conduta da violência a qual a sociedade brasileira se formou, se transforma numa aberração ou torna-se alvo.

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Vendo os alunos do Barbosa Lima obedecerem ao comando ameaçador do som do barrote contra o birô, cheguei às seguintes conclusões:

Então, o problema estava em mim, isto é, na minha voz, na minha calma, na minha compreensão. Portanto, pensei formas de solucioná-lo:

Primeiro, se não tenho uma voz estridente, ao menos preciso gerar um som que consiga competir com o ventilador e com mais da metade da turma conversando, para que o faça chegar até o final da sala de aula, onde fica a turma do fundão, a que menos presta a atenção. Para, com o silêncio, conseguir ser ouvida de alguma forma.

Um barrote, inquestionavelmente, era uma boa solução para emitir um som capaz de competir com os alunos.

“Um barrote?”. Relembrei a cena do professor batendo contra o birô; tive a sensação de sentir, novamente, o impacto do som sobre mim. O medo… “Não… Um barrote, não. É muito violento. Eu só quero chamar a atenção. Só quero que parem pra me escutar…”

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Um dia, na sala de letra D** do Barbosa Lima, a mais afastada, com a maior quantidade de alunos despreocupados em assistir à aula (era onde se dizia que eu deveria tomar cuidado, pois alguns traficavam droga lá***…), após inúmeras tentativas de ser ouvida, de dias e dias de choro em casa, da vontade de desistir de tudo, da impressão diária de ser um fracasso; do vazio; de não ter outra forma de sustento; da falta de opção na vida; lembrei da cena com o som estridente e da firmeza do melhor professor da escola com o barrote contra o birô.

Olhei para baixo, procurei algo que pudesse ser tão útil quanto o pedaço de madeira. Algo que pudesse emitir um som tão alto quanto o do barrote e incomodasse os alunos mais do que o incômodo que eu já sentia, dia após dia, com a falta de reciprocidade daquela escola barulhenta e insalubre, com tantas grades e corredores quanto uma prisão.

Olhei para baixo e vi o meu apagador sobre o birô. Imediatamente, peguei-o com a parte mais dura do meu instrumento de trabalho para baixo, a parte do apoio, em direção à mesa.

Bati o apagador com toda a minha força, repetidas vezes, contra o birô. Enquanto parava por um momento, aproveitava para pedir silêncio.

O barulho não foi tão estridente como o do barrote, mas serviu para tirar expressões de incômodo dos alunos, alguns tamparam os ouvidos, outros olharam com raiva para mim. Finalmente, eu estava incomodando, ao invés de ser incomodada. Finalmente, eu tinha entendido, na prática escolar, a linguagem da violência psicológica.

Ou aquele macho era um ótimo professor, mesmo, em que o barrote agora era um recurso pedagógico. Ou eu era uma ótima aluna autodidata. Ou estávamos encenando, ali, como animais selvagens, sob condições desumanas de trabalho, de inférteis relações humanas e escassos processos de ensino-aprendizagem, uma escola macabra do terror.

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Pouco a pouco, com a minha insistência em repetir o som invasivo, finalmente os alunos da sala de codinome D do Barbosa Lima passaram a olhar para mim e a prestar a atenção na professora que mais parecia uma aluna e já/ainda estava na sala de aula.

Com boa parte da turma em silêncio, ampliei a voz com firmeza. Não escondi a raiva nem a frustração de não conseguir começar a aula ou manter a turma minimamente concentrada por 15 minutos que fosse. Dei sermão. Descarreguei tudo na altura da minha voz, também. E isso se repetiria todas as vezes que se tornava impossível dar aula, até eu ficar rouca e exausta. Recorri à técnica do barulho com o apagador em aulas posteriores, quando notei que esse recurso começou a perder o efeito, ao passo, também, que fui percebendo o meu distanciamento do que realmente significava ser professora para mim.

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Um dia, no Ana Malta, provavelmente nos meses finais do ano letivo, período em que eu – assim como, costumeiramente, boa parte do corpo pedagógico – já não tinha muita energia em lidar com a desgastante rotina da escola, completamente exausta, sentindo vertigens de cansaço, sem forças, entrei para dar aula, no último turno, na turma que tinha alunos com mais tempo de convivência; sendo, também, uma das salas mais barulhentas.

Uma parte dos estudantes que ali estavam, eu tinha começado a dar aula no quinto ano e, agora, cursavam o último ano do Ensino Fundamental II (ou o penúltimo); isto é, ou o oitavo ou nono ano.

Em outras palavras, já havia uma familiaridade, muitas turminhas formadas, todos estavam não apenas no final do ano letivo como do ciclo escolar. Alguns não se interessavam em estar dentro da sala de aula. Só frequentavam a escola para conversar e passar o tempo, pois, no final, passariam, mesmo.

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O que me encantava naquela turma era que a maioria se desenvolvia bem nas minhas propostas mais desafiadoras de miniprojetos. Mas, na estrutura militarizada da sala de aula, cotidianamente, sem recursos pedagógicos básicos, na escassez, além do meu irrisório salário; isto é, com o projeto de destruição da educação, nadar contra a corrente é o mesmo que se afogar nas águas do capitalismo.

É recomendação dos salva-vidas fazer uma retirada e nadar para a lateral, quando nos vemos na passagem de retorno das ondas no mar.

Nadar contra a corrente nos tira toda a energia e força. Nos desgasta. Nos impossibilita de reverter a situação com o que ainda temos disponível.

É preciso estratégia de sobrevivência tanto contra a correnteza do mar quanto contra a selvageria do capital.

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Entrei na sala de aula do Ana Malta e a turma, em peso, conversava como se estivesse numa feira do troca.

Coloquei a minha bolsa e, talvez, alguma pasta com atividades sobre o birô. Provavelmente, eu também trazia um pesado multimídia que costumava usar para dar aulas mais interessantes.

Normalmente, eu já começaria a montar o equipamento e algum aluno, ao notar a minha presença, se ofereceria para me ajudar ou conversar algo.

Mas resolvi fazer o que raramente fazia (sequer doente): sentar.

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Fiquei admirando a feira do troca em silêncio, com uma expressão séria, demonstrando visível descontentamento com a situação.

Alguns perceberam a minha reação incomum e também se silenciaram por conta própria. Outros, falaram com o colega ao lado para virar o corpo para frente, para prestar atenção em mim. Contudo, a maioria ainda conversava freneticamente.

– Ei! Ei! Silêncioo! Silênciooo! Maia tá aqui!
– Ei, gente! Silêncio!
– Calem a bocaaaaa!!!!
– Maia tá aqui!!!! Silênciooooo!!!

Com a minha calma e paciência usual, eu presenciei os alunos educarem a si mesmos, entre si, para fazerem silêncio.

Gradativamente, a feira do troca foi se transformando numa sala e aula e, finalmente, a turma notou a minha presença e começou a prestar atenção em mim, sem que eu tivesse emitido um ruído sequer.

Notas

*Na época em que trabalhei nas escolas públicas, o governo do estado de Pernambuco mantinha essa estratégia de realizar contratações temporárias que, em teoria, deveriam ser para fins emergenciais. Porém, na prática, esse modo de contratação compunha boa parte do quadro de professores das unidades escolares - estratégia que não só prejudica o regular funcionamento da escola, pois há uma rotatividade anormal desses professores emergenciais, além de enfraquecer a classe, uma vez que a contratação temporária não compõe o quadro efetivo. Além disso, professores em regime de contratação recebiam bem abaixo dos efetivos, sem benefícios (era comum cancelar o contrato em dezembro e voltar a contratar só na volta do próximo ano letivo, em fevereiro). Embora eu esteja me referindo ao tempo passado, não será surpresa, para mim, que essa prática, implantada pela Secretaria de Educação do Estado e suas gerências regionais no meu período de atuação pela GRE-Recife-Norte, ainda seja recorrente.
**Nas organizações escolares em que as salas são subdivididas por letras (8A, 8B, 8C, 8D, por exemplo), quanto mais distante a letra, a tendência é que mais distante os alunos também estão de uma conclusão regular dos estudos. Nesse caso, a posição do alfabeto pode representar a posição de crença ou descrença (abandono) para com o aluno.
***Sendo, também, a mesma sala em que um aluno chegou (minutos depois do final do turno da manhã) aparentemente drogado e me abraçou (me assediou), falando coisas sem sentido sobre ficar comigo. Na ocasião, a sala era a mais afastada de todas e não havia ninguém próximo, pois todas as turmas já tinham largado.

[1] PAULUZE, Thaiza; NOGUEIRA, Italo. Exército dispara 80 tiros em carro de família no Rio e mata músico. Folha de São Paulo, Cotidiano, 8 de abril de 2019. https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2019/04/militares-do-exercito-matam-musico-em-abordagem-na-zona-oeste-do-rio.shtml
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